6 de agosto de 2020
Livros
Resenha | Por que ‘A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes’ ainda se faz tão necessária para os fãs de Jogos Vorazes?

Polêmico desde seu anúncio, A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes foi uma surpresa temerosa e muito ambiciosa (ao olhar dos fãs) da autora Suzanne Collins. Isso porquê o livro seria narrado pelo grande vilão da trilogia original de Jogos Vorazes, o ditador sanguinário – Presidente Coriolanus Snow.  Então, dez anos depois de encerrar sua trilogia best-seller, Jogos Vorazes (2008 a 2010), Collins retornaria ao mundo distópico de Panem, mas com um protagonista improvável.

Após uma trilogia bem sucedida (a trilogia dos Jogos Vorazes já vendeu mais de 100 milhões de cópias), filmes que foram sucesso de bilheteria e muito reconhecimento, você acredita que seria necessário retornar a Panem e justificar alguma coisa na história? Suzanne Collins acredita que sim. Em A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes, o leitor é enviado para uma Panem pós-rebelião, que ainda tentava se reerguer, 64 anos antes de Katniss competir nos Jogos, aqui, temos o início do que ainda se tornariam os Jogos Vorazes em que somos apresentados  na trilogia original.

Na nova obra, somos introduzidos ao universo de Coriolanus Snow, um jovem de dezoito anos, estudante da prestigiada Academia, falido que precisa desesperadamente de uma bolsa de estudos para entrar na faculdade. Com uma família de linhagem prestigiada, ‘Coryo’ vive seus dias praticamente passando fome em um apartamento de luxo, com sua prima Tigris e sua avó. E seu objetivo singular é trazer glória de volta à Casa Snow.

Seguindo a tendência dos outros livros, Suzanne Collins  cria uma história pautada em filosofias e muita politicagem. boa parte da leitura é esclarecedora sobre algumas ideias dos jogos. Só recomendo se você for um fã da distopia original.

Eis então o prelúdio de Jogos Vorazes, uma feliz surpresa, que superou as expectativas, mas com ressalvas. O livro é muito nostálgico e cheio de fan service e easter eggs da saga original para quem sentiu saudades. Também são trabalhados detalhes de JV que passaram batidos na primeira trilogia, por exemplo, somos apresentados a história de origem da canção “Hanging Tree”. A experiência de ler como a autora trabalhou na (des)construção do caráter de Snow, é incrível. Apesar de ser uma história onde já se sabe o fim,  é impossível não se surpreender com cada atitude egocêntrica, cruel e maquiavélica do personagem.⁣ Toda a nostalgia é válida por trabalhar melhor um personagem tão complexo.⁣

Totalmente despida de toda “atração e beleza” apresentado nos Jogos Vorazes, a obra se torna muito mais cruel, chocante e real, mostrando o quanto a autora vem tentando nos chocar nos fazendo sentir desconfortáveis e aterrorizados com o que é narrado.

O livro é divido em três partes, porém, uma das mais problemáticas está na 3a parte, que se diverge muito das duas anteriores. No início temos o pré-jogo e o jogo (partes 1 e 2), as duas  são bem eufóricas e surpreendentes, com boas cliffhangers que te fazem ficar preso no livro. Enquanto o pós-jogo (3ª parte), parece um livro a parte, com uma dinâmica totalmente diferente.

Suzanne Collins / The New York Times

As controvérsias ⁣e a necessidade de um novo livro

O questionamento que fica, até então, é sobre a necessidade de um novo livro, para explicar uma história que já tinha conclusão. No geral, A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes é uma obra muito bem trabalhada, excelente para quem já é amante da saga, mas que provavelmente não conquistaria os fãs como o original fez. Isso porque diferente da primeira trilogia, este livro não romantiza os Jogos Vorazes.

Uma das maiores questões da autora com os fãs da saga, sempre foi a ‘glamorizarão‘ dos próprios em relação aos jogos. Isso começa a aparecer de forma sutil quando os fãs escolhem ‘por brincadeira‘ de qual distrito pertenceriam, ou para qual tributo torceriam e por ai vai, apenas uma brincadeira inocente. Porém, para entender a problemática disso, precisamos voltar para uma das principais razões que fizeram Suzanne Collins escrever a trilogia de Jogos Vorazes. Em uma entrevista em 2012, a autora fala abertamente sobre a violência e falta de sensibilidade que as pessoas desenvolveram ao assistir tragédias na televisão.

Jogos Vorazes é um programa de televisão de realidade. Um extremo, mas é o que é. E embora eu ache que alguns desses programas podem ter sucesso em diferentes níveis, há também a emoção voyeurista, vendo pessoas sendo humilhadas ou levadas às lágrimas ou sofrendo fisicamente. E é isso que acho muito perturbador. Existe esse potencial de dessensibilizar o público para que, quando eles veem uma verdadeira tragédia nas notícias, ele não tenha o impacto que deveria. Tudo se confunde em um programa. E acho que é muito importante não apenas para os jovens, mas para os adultos para garantir que eles façam a distinção. Como o jovem soldado está morrendo na guerra do Iraque, não vai acabar no intervalo comercial. Não é algo fabricado, não é um jogo. É a sua vida.

Sabendo disso, temos o público da saga, que mesmo conhecendo a história através de Katniss- uma tributo do distrito 12- ainda assim, se fascinava com os jogos. Uma das maiores críticas que a autora recebeu sobre sua trilogia de livros foi que, em ‘A esperança‘, por não ter jogos, foi o mais fraco da saga.

A partir disso, surge a necessidade de escrever mais um livro, para reforçar a mensagem e acabar com o conceito de que toda a saga se trata apenas dos Jogos Vorazes, quando aborda temas como desigualdade, filosofia, politica e tantos outros assuntos muito atuais e necessários.  Neste volume, as críticas da autora à desigualdade social e outros problemas estão ainda mais presentes, em especial quando retrata o modo como as pessoas dos distritos são tratados: como animais, que só servem para o trabalho pesado, sustentando os luxos da Capital, em troca de uma falsa segurança que esta os oferece.

Como qualquer outro livro, ele tem muitos problemas, e existem diversos motivos que podem ocasionar um desgosto no leitor, porém o desconforto é um dos principais gatilhos mencionados em resenhas, já que ele tem que lidar com o fato que agora esta vendo a história através dos olhos do grande vilão que glamorizou um espetáculo sanguinário para que ele se encantasse e desejasse aquilo. Isso causa uma controvérsia para quem está lendo, este é o sentimento que o faz rejeitar o livro, já que vem da compreensão de que ele se tornou o que abominava – admirador dos jogos vorazes-.

Quando vi o volume de críticas e resenhas decepcionadas com a obra e a autora, me questionei: o que exatamente essas pessoas  estavam esperando deste livro? Outro Jogos Vorazes? A história de outro tributo vencedor? Se a resposta for sim, então você não entendeu a mensagem da autora com A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes. Por isso este livro ainda se faz tão necessária para os fãs de Jogos Vorazes.

A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes foi traduzido pela editora Rocco no Brasil. Este foi um lançamento inédito de 2020 e já foi confirmado que será adaptado para as telas de cinema, contando com o mesmo diretor da primeira trilogia, Francis Lawrence.

 

 

 

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